Não é só a microbiota intestinal que tem importância para a homeostase da saúde, apesar de ser aquela com maior número de estudos na literatura científica. Existem diversas microbiotas que são necessárias para o funcionamento orquestrado do organismo, sendo compostas por diferentes perfis de micro-organismos, assim como quantidade, ainda, são influenciadas por diversos fatores internos e externos, como a gestação. E são para as diferentes microbiotas femininas durante este período que daremos destaque.

Qual a importância das microbiotas maternas?

O estudo da microbiota materna durante a gestação é importante tanto para a saúde da mãe quanto para a saúde do bebê. Isso porque, para a mãe, as alterações de suas microbiotas estão relacionadas com complicações na estação, como a pré-eclâmpsia, a eclâmpsia, o risco de parto prematuro, entre outras. Quanto ao bebê, mudanças nas microbiotas da mãe relacionam-se com a restrição de crescimento intrauterino e complicações neonatais.

Microbiota oral

São poucos os trabalhos que relacionam a microbiota oral e a gestação. A presença de disbiose na microbiota da boca está relacionada com o desenvolvimento de periodontites crônicas que podem aumentar o risco de parto prematuro, abortamentos e pré-eclâmpsia. Sparvoli et al. (2019) avaliaram que a gestação promove aumento do gênero Streptococcus, que se relaciona com proteção contra infecções orais.

Microbiota uterina e placentária

Pensava-se que estes ambientes eram estéreis, porém estudos demonstram a presença de microbiota uterina e placentária, sendo que a origem da colonização destas bactérias, nestes ambientes, possivelmente, é oral (BAYAR et al., 2020). Em um grupo de mulheres que experienciaram parto prematuro, os autores observaram um enriquecimento de espécies de Burkolderia, enquanto que mulheres com parto a termo apresentaram aumento de Paenibacillus. Também foram encontradas, na placenta, as espécies Prevotella tannera e Neisseria sp. não patogênicas, as quais estão presentes, ainda, na cavidade oral (AAGAARD et al., 2014). A microbiota placentária potencialmente exerce efeitos no desenvolvimento da imunidade inata do bebê, uma vez que existe a possibilidade de fornecer determinantes antigênicos (PELZER et al., 2017). A presença de bactérias no sistema intrauterino está associada a complicações perinatais como prematuridade, mas há necessidade de mais estudos para estabelecer seu papel nos processos de saúde perinatais e o estabelecimento inicial do microbioma do recém-nascido (DUUN et al., 2017).

Microbiota vaginal

A composição da microbiota vaginal varia com a idade, produção hormonal, ciclo menstrual, uso de medicamentos, atividade sexual e gestação. O gênero Lactobacillus é o encontrado em maior predominância nas mulheres em idade reprodutiva, correspondendo a cerca de 85% desta microbiota. À medida que a gravidez progride, a microbiota vaginal sofre mudanças, principalmente, devido às alterações hormonais (constante produção de estrogênio e progesterona), além do desenvolvimento do feto, propiciando inclusive maior proliferação e manutenção do gênero Lactobacillus, que tem papel fundamental na imunidade vaginal. Este gênero é importante para impedir a proliferação de bactérias causadoras de infecções genitais, que podem se relacionar com prato prematuro. A maior diversidade de micro-organismos e a baixa concentração de Lactobacillus, na microbiota vaginal, estão relacionadas com partos pré-termos em mulheres caucasianas, sendo que o Lactobacillus crispatus parece oferecer uma proteção contra o parto prematuro (KERVINEN et al., 2019).

Microbiota intestinal

A relação desta microbiota com o estado de saúde e a doença dos indivíduos já é bem estabelecida na literatura. Sparvoli et al. (2019) demonstraram que há proliferação de bactérias produtoras de butirato na microbiota intestinal durante a gestação. Estudos revelam que a maior presença de micro-organismos vinculados à doença, no decorrer da gestação em mulheres diagnosticadas com diabetes gestacional, e, também, o uso de antibióticos, ao reduzir bactérias protetoras presentes na microbiota intestinal, podem impactar negativamente no metabolismo e na imunidade materna, além de influenciar na microbiota do bebê (DUNN et al., 2017). A redução de Bifidobacterium pode se relacionar com o aumento da susceptibilidade de parto prematuro induzido por inflamação ou infecção.

Vitamina D 

A vitamina D é um micronutriente, com diversas funções no organismo, e uma dessas funções é atuar no desenvolvimento das glândulas mamárias, por terem receptores compatíveis. Alguns estudos apontam a deficiência deste nutriente com o desencadeamento de diversas doenças, inclusive ao câncer de mama. Hossain et al. (2019) concluíram em sua meta-análise de estudos observacionais que a deficiência de vitamina D estava diretamente relacionada com o desenvolvimento do câncer de mama, enquanto a suplementação com este nutrientes, se relacionou de forma inversa com esta patologia.

 

REFERÊNCIAS

SPARVOLI, Luiz Gustavo. Caracterização da microbiota vaginal, intestinal e oral durante o período gestacional. Dissertação (Mestrado em Fisiopatologia) – Faculdade de Ciências Farmacêuticas, University of São Paulo, São Paulo, 2019. Disponível em < https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/9/9142/tde-31072019-114756/pt-br.php>. Acesso em 20 out. de 2020.

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BAYAR, E. et al. The pregnancy microbiome and preterm birth. Semin Immunopathol, v.42, p.487–499, 2020. Disponível em: < https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7508933/pdf/281_2020_Article_817.pdf>

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DUUN, A.B. et al. The Maternal Infant Microbiome: Considerations for Labor and Birth. MCN Am J Matern Child Nurs, v. 42, n. 6, p. 318–325, 2017. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5648605/pdf/nihms887654.pdf> Acesso em 20 out. de 2020.

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