O atual consumo alimentar de diversos países, dentre eles o Brasil, vem sofrendo rápidas modificações nas últimas décadas, influenciadas pelas mudanças socioeconômicas e demográficas. Em paralelo ao aumento da ingestão de alimentos ultraprocessados e ricos em açúcar e aditivos químicos, a prevalência de obesidade e doenças crônicas, incluindo aquelas associada à estética, também, têm aumentado de forma alarmante em toda a população.

De acordo com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) de 2008-2009, o excesso de peso observado na população brasileira dobrou nos últimos 30 anos, afetando 50% dos homens e 48% das mulheres. Esse fator tem provocado um grande crescimento de desordens associadas à obesidade e à inflamação sistêmica, com destaque às alterações dermatológicas.

A inflamação, que antes era considerada apenas um sistema de defesa do organismo e uma resposta local aguda a processos infecciosos, atualmente, é mediada pelo sistema imune inato, cada vez mais estudado em relação à sua influência no desenvolvimento de diversas doenças. É promovida por meio da atividade de citocinas e polipeptídeos produzidos por células mononucleares, como monócitos e macrófagos, fator estimulado pelo estilo de vida, exposição a toxinas, dieta inadequada, estresse e outros.

Alterações na pele, caracterizadas por manchas ou erupções cutâneas, podem ser desencadeadas ou agravadas pela liberação de mediadores inflamatórios. No quadro de obesidade, o processo de inflamação do tecido adiposo induz à resistência à insulina, que, por sua vez, provoca um deficit de ação em tecidos como o hepático, adiposo e muscular, levando ao aumento da reação inflamatória crônica que forma um ciclo vicioso. Outra condição que tem relação direta com o desenvolvimento de desordens estéticas é a disbiose intestinal, desequilíbrio bacteriano que se reflete em aumento da permeabilidade da mucosa e diminuição da seletividade na absorção de substâncias tóxicas, contribuindo para inflamação local e sistêmica, ativação do sistema imunológico e, consequentemente, alterações dermatológicas, como eritema, urticária, dermatite, celulite e acne.

Estratégias nutricionais e suplementares são essenciais no atendimento do paciente que tem alguma desordem estética que comprometa sua autoestima e qualidade de vida. Os efeitos dos probióticos na área dermatológica vêm sendo amplamente estudados, sendo que um ensaio randomizado, realizado na Coreia, com 110 mulheres saudáveis, que apresentavam pele seca e sinais de rugas, comprovou essa associação. Houve, com 12 semanas de intervenção com probióticos, aumento significativo no conteúdo hídrico da pele da face e das mãos, redução da profundidade das rugas e potente melhora da aparência e elasticidade da pele.

Por sua vez, algumas doenças crônicas também interferem na estética de forma indireta. As terapêuticas utilizadas para tratamento do câncer, por exemplo, influenciam e impactam em diversos aspectos relacionados à aparência. Queda de cabelo, procedimentos cirúrgicos obrigatórios e até mesmo alterações emocionais podem comprometer a valorização corporal do paciente e, por isso, condutas nutricionais e psicológicas são extremamente importantes.

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