Com uma história de mais de 2.000 anos, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) vem ganhando maior prevalência mundial, com amplas aplicações clínicas e estratégias para melhora de quadros desde hipertensão até atividade antiaging. Assim, para compreensão mais ampla desta área, criamos um guia prático com algumas das principais dúvidas e possíveis aplicabilidades da MTC para sua prática clínica, lembrando que são conceitos básicos e para iniciar os seus estudos nesta área:

 

O que é a MTC?

A MTC refere-se à abordagem holística do diagnóstico, fisiopatologia e terapia na medicina chinesa, com base em mais de 2.000 anos de conhecimento e prática. Os principais aspectos da prática incluem medicamentos à base de plantas e outros ativos naturais, dietoterapia e acupuntura e diversas terapias físicas, tais como massagem. Fora da China, a prática é geralmente considerada uma forma complementar ou “alternativa” da medicina moderna. Porém, há exemplos clássicos de como ela já contribuiu para esta medicina, como é o caso da artemisinina, que, hoje faz, parte do tratamento da malária e que foi resultado de um importante papel da MTC, já que este composto foi isolado e testado na década de 1970, pela primeira vez, na China (Wang, Wong e Liao, 2018 e Tu, 2016).

 

Entendendo a base da MTC:

Yin e Yang são conceitos básicos da medicina oriental, sendo opostos e complementares, com interação entre si, e auxiliam na compreensão de alterações, assim como no diagnóstico e tratamento de desordens fisiológicas, emocionais e mentais. Para entender como se expressam, o Yin tem características de pouco movimento, frio, escuridão, repouso, já o Yang se caracteriza como elevada atividade, calor, claridade, movimento. Um não pode existir sem o outro. As desarmonias no corpo são mudanças no Yin e Yang devido ao desequilíbrio de energia e, por isso, com a MTC, busca-se atingir a harmonia integrada para a saúde efetiva.

Além do Yin e Yang, na MTC, leva-se em consideração a organização do mundo de acordo com cinco elementos, que são representados por um pentagrama, aos quais estão associados uma estação do ano, uma cor, um sentimento, um sabor, um órgão (todos os órgãos são representados pelo Yin) e uma víscera (todas as vísceras são representadas pelo Yang). Veja quais são os elementos e o que são representados por eles:

 

Madeira – fígado e vesícula biliar, raiva, paladar azedo e a estação é primavera.
Metal – pulmão e intestino grosso, tristeza, paladar picante e a estação é outono.
Terra – baço, pâncreas estômago, preocupação, paladar doce e a estação é a interestação (período de intervalo entre uma estação e outra).
Água – rim e bexiga, medo, paladar salgado e a estação é inverno.
Fogo – coração e intestino delgado, alegria, paladar amargo e a estação é verão.

 

Como a MTC pode ser aplicada na sua prática clínica:

 

– Dietoterapia:

Uma das formas de você utilizar os princípios da MTC na prática clínica é a partir da própria alimentação. Os alimentos, na MTC, possuem características que auxiliam no tratamento das desordens físicas, mentais e emocionais. Para isso, é importante saber a propriedade do alimento (quente, morno, neutro, fresco, frio), o sabor (amargo, doce, picante, azedo, salgado), a sua função (relação com a desordem), o horário de consumo e a estação do ano, para, assim, inclui-lo na sua prescrição alimentar.

 

– Suplementos:

Com exceção de alguns ativos, o padrão mais comum de uso na MTC é a aplicação de fórmulas, mas isso dependerá do objetivo do tratamento. Para a elaboração das fórmulas chinesas, há uma estrutura padrão de ingredientes que deve ser respeitada, tendo sempre um ingrediente principal e outros que irão modular a sua ação e agir de forma integrada. Todos os componentes são pensados para que haja maximização do efeito terapêutico e minimização dos efeitos colaterais, sendo que sua indicação é reequilibrar o organismo como um todo, assim, melhorando o sintoma principal e os secundários, levando em consideração os elementos, conforme citado anteriormente.

 

MTC na sua prática clínica – Envelhecimento e saúde da mulher

A revisão conduzida por Shen et al. (2017) reúne uma série de estudos que demonstram os compostos e seus efeitos, estudados na MTC, que são capazes de regular mecanismos associados ao envelhecimento, como telômeros e telomerases e sirtuínas, como resveratrol, garlicina, astragalosídeo, icariin, ginsenosídeo, entre outros. Já Di et al. (2019) conduziram uma revisão sistemática e metanálise de estudos clínicos randomizados com o uso de terapias da MTC no tratamento da depressão em mulheres no climatério e na menopausa e, como conclusão, o uso de suplementos (como Epimedium brevicornum Maxim, Bupleurum chinense,, Cornus officinalis, Ligusticum chuangxiong, Angelica sinensis, Diels e Anemarrhena asphodeloides), associado à acupuntura, resultou em uma melhora expressiva dos sintomas de depressão, com resultados semelhantes aos dos antidepressivos.

 

REFERÊNCIAS

 

WANG, J., WONG, Y-K, LIAO, F. What has traditional Chinese medicine delivered for modern medicine? Expert Reviews in Molecular Medicine, v. 20, e4, p. 1–9, 2018.

MA, Y. et al. Traditional Chinese Medicine: Potential Approaches From Modern Dynamical Complexity Theories. Frontiers in Medicine, v. 10, n. 1, p. 28-32, 2016.

TU, Y. Artemisinin-A Gift From Traditional Chinese Medicine to the World (Nobel Lecture). Angewandte Chemie (Int Ed Engl), v. 55, n. 35, p. 10210-10226, 2016.

SHEN, C.-Y. et al. Anti‐ageing active ingredients from herbs and nutraceuticals used in traditional Chinese medicine: pharmacological mechanisms and implications for drug Discovery. British Journal of Pharmacology, v. 174, n. 11, p. 1395-1425, 2017.

PUJOL, A. P. (Org.). Nutrição Aplicada à Estética. Rio de Janeiro: Rubio, 2011.

DI, Y. M. et al. Clinical Evidence of Chinese Medicine Therapies for Depression in Women During Perimenopause and Menopause. Complementary Therapies in Medicine, v. 47, 2019.